Uma prática corporal que toca os abismos
O Dark Fusion Dance
Olá, pessoal. Antes de tudo, agradeço profundamente a cada pessoa que acredita, acompanha e confia no meu trabalho. Esse apoio tem sido fundamental para que eu reflita, com ainda mais responsabilidade, sobre a importância do que desenvolvo dentro da comunidade. Não tem sido fácil conciliar tudo. Mas, saber que meu trabalho reverbera, toca e provoca reflexão é um sinal de que sigo um caminho coerente e necessário. Hoje eu gostaria de falar para vocês a respeito do Dark Fusion, por favor, não negligenciem essa leitura.
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Vou compartilhar com vocês um pouco dessa história. Acredito que até no meio artístico, carece-se de informações a respeito. Existem diversas teorias acerca da história da Dança Tribal e da origem do Dark Fusion, uma vez que não há consenso entre pesquisadoras, professoras e artistas sobre o tema. Parte dessas opiniões afirma que o Dark Fusion surgiu a partir do Tribal Fusion, que, por sua vez, deriva do antigo ATS (American Tribal Style). Outras defendem que a estética “dark” já existia anteriormente, manifestada por bailarinas que praticavam o Gothic Bellydance e o Gothic Fusion Bellydance e eram contemporâneos do Tribal. Há ainda quem compreenda que Dark Fusion e Gothic Bellydance são, na prática, a mesma linguagem, apenas nomeada de formas distintas ao longo do tempo.
As abordagens mais recorrentes na pesquisa apontam o Dark Fusion como uma vertente, subgênero ou estilo inserido dentro do Tribal Fusion. Professoras e dançarinas que compartilham dessa perspectiva consideram fundamental o estudo das bases da Dança Tribal para, a partir delas, realizar fusões com outras linguagens corporais. Já aquelas que entendem o estilo como oriundo do Gothic Bellydance veem a Dança do Ventre como raiz técnica e expressiva essencial, servindo de base para as fusões. Em contrapartida, há também quem compreenda o Dark Fusion como a fusão de diferentes estilos de dança sob uma atmosfera sombria (eu me incluo aqui), sem a obrigatoriedade de que a Dança do Ventre ou a Dança Tribal sejam suas matrizes principais. Particularmente, compreendo que esses vocabulários podem ser expandidos para qualquer tipo de fusão, desde que a estética, a intenção e a atmosfera permaneçam sombrias.
O Dark Fusion Dance é um estilo que ainda gera estranhamento, incompreensão e julgamentos equivocados. Talvez porque ele não se encaixe facilmente nas expectativas mais comuns sobre o que a dança “deveria” ser. Meu percurso na dança começou em 2001, mas foi por volta de 2010, ao entrar em contato com o Tribal Fusion, que encontrei um território fértil na dança para investigar o sombrio. Diferente da Dança do Ventre, frequentemente associada ao brilho, à simpatia e à estética do entretenimento, o Tribal Fusion me oferecia autonomia e profundidade: liberdade de temas, músicas e figurinos. Com o tempo, compreendi que existia dentro desse universo um subgênero que assumia plenamente o obscuro, o gótico e a sombra — aquilo que mais tarde reconhecemos como Dark Fusion. Embora não exista um consenso absoluto sobre sua origem e conceito, é inegável que a Dança do Ventre está na raiz tanto do Tribal Fusion quanto do Gothic Bellydance e do Dark Fusion, mas que nos permite ir muito além dela.
Ao longo das décadas, especialmente a partir dos anos 1990, artistas de países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Brasil passaram a explorar fusões cada vez mais densas, incorporando referências da subcultura gótica e do dark arts. O Dark Fusion passou, então, a se constituir como uma linguagem que investiga o lado obscuro da psique humana, a dualidade entre o sublime e o grotesco, os traumas, os conflitos internos e o inconsciente, muitas vezes atuando como um processo de arte-terapia. E também de forma estética e representativa, buscando em temáticas de filmes, livros e personagens, inspirações para criar. Trata-se de uma dança que não busca apenas beleza ou entretenimento, mas que transforma o corpo em espaço de elaboração criativa que toca em pontos negligenciados.
Em um contexto social que frequentemente reprime a sombra e valoriza apenas imagens agradáveis, “bonitas” e que fazem referência a luz, o Dark Fusion Dance cumpre um papel profundamente relevante, tanto no plano pessoal quanto coletivo. Ele é uma resistência que legitima emoções consideradas indesejáveis, dá voz a corpos dissidentes e rompe com padrões hegemônicos de movimento, presença e estética. Cada dançarina e dançarino constrói sua própria forma de vivenciar o Dark Fusion, criando fusões, temáticas e narrativas singulares. Não existe uma verdade única sobre o estilo, e é justamente essa liberdade que o torna tão potente.
Tenho dedicado parte significativa da minha trajetória à pesquisa sobre o Dark Fusion Dance (como passei a chamar, retirando o “bellydance” da nomenclatura). Um dos meus estudos mapeou o desenvolvimento do estilo em países como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, assim como seu surgimento e consolidação no Brasil. A investigação abordou a dualidade entre o sublime e o grotesco, elementos estruturantes dessa linguagem artística, analisando também as contribuições de artistas precursoras e suas múltiplas influências estéticas, culturais e simbólicas. A pesquisa foi conduzida a partir da metodologia da História Oral híbrida, articulando entrevistas, matérias de revistas — com destaque para a Revista Tribalizando, edição especial Dark —, artigos, dissertações, vídeos do programa Dark Fusion Brazil Online, além de palestras e apresentações realizadas em eventos como o Gothla Brasil e o Dark Congress. Embora ainda marginalizado no cenário artístico, o Dark Fusion é compreendido aqui como uma manifestação relevante, justamente por abordar temas frequentemente negligenciados pela cultura ocidental, encontrando na dança sua principal forma de expressão. O estudo também identificou o Brasil como um dos países pioneiros no desenvolvimento do estilo, com artistas que, desde a década de 1990, já realizavam experimentações corporais e cênicas posteriormente reconhecidas como Gothic Bellydance e/ou Dark Fusion.
Diante da ausência de consenso sobre a origem e a autoria do estilo, apresento também uma possível leitura histórica da Dança do Ventre Gótica como base para o desenvolvimento do Dark Fusion, mas que também coexistem. Embora o estilo dialogue fortemente com o movimento underground surgido nos Estados Unidos na década de 1960, não há registros que comprovem seu nascimento nesse período. Suas raízes permanecem, em grande parte, desconhecidas. O que se sabe é que os primeiros trabalhos com essa estética começaram a ganhar visibilidade na década de 1990 e não estavam restritos aos Estados Unidos. Como já mencionei, países como Reino Unido, Brasil e Alemanha também desenvolveram, de forma paralela, experimentações de fusão sombria nesse período.
No Reino Unido, destacam-se já bem no início dos anos 2000 Dawn O’Brian e seu grupo Kalganie, além de artistas como Lucretia (Christine Emery), Fulya (Lynn Chapman) e Akasha (Heike Humphreys). Na Alemanha temos dançarinas na década de 90 como Deva Matisa, Xahira, Arzo-Carina Renz e Katari. No Brasil temos, também na década de 90, a Zarah Violet, a Una Shamaa e a Dúnia la Luna (este última afirmou em entrevista que nunca fez nada intencional e nunca nomeou sua dança de Gothic ou Dark, mas que ela expressava organicamente esse universo). Temos também a Rhada Naschpitz, que no final de 90 e início dos anos 2000 já fazia sua fusão com o Rock e o Metal. Na América Latina, particularmente na Argentina, temos a Iman Néfesh, anteriormente conhecida como Iman Najla, que viveu a subcultura gótica dos anos 80 e desenvolveu no início dos anos 2000 uma fusão obscura própria, encontrando nesse estilo sua expressão artística e espiritual.
Apesar disso, é comum encontrarmos referências que afirmam que o Dark Fusion e o Gothic Bellydance surgiram nos Estados Unidos, tendo como pioneiras bailarinas como Ariellah, Tempest e Sashi, que também faziam suas fusõe sombrias paralelamente. O que de fato ocorreu é que a nomenclatura “Dark Fusion” foi cunhada por Ariellah no início dos anos 2000 para nomear algo que já existia sob o termo Gothic Bellydance em vários países. Muitas dessas bailarinas estavam profundamente envolvidas com a subcultura gótica e passaram a se apresentar em clubes alternativos e centros urbanos, formando grupos e difundindo essa estética. Posteriormente, essas profissionais começaram a viajar pelos Estados Unidos e por outros países, ministrando workshops e distribuindo materiais didáticos (os bem conhecidos DVDs da World Dance New York), o que contribuiu significativamente para a disseminação do estilo.
Outro marco importante foi a criação do Festival Gothla, idealizado por Bridie e Heyke em 2006, com sua primeira edição realizada na Inglaterra em 2007, que contou com a participação da Ariellah, Tempest e Sashi. Embora o nome Gothla (goth + hafla) tenha sido cunhado pela Tempest, nos Estados Unidos, o Gothla só aconteceu um ano depois, organizado por Sashi e Tempest, tornando-se um dos principais espaços de legitimação e visibilidade do Dark Fusion e do Gothic Bellydance no cenário internacional.
Em termos de movimentação, o estilo apresenta forte presença de movimentos da Dança do Ventre Tribal, mas ao longo do tempo incorporou diversas outras fusões, como elementos do Cabaret, que acentuam a sensualidade e o mistério da dança sombria, além de influências industriais e cibernéticas oriundas da cena gótica dos clubes — os chamados stompy moves. O Burlesco também aparece como influência recorrente, sendo frequentemente associado a referências do cinema mudo, como o filme The Vamp (1920) e a figura icônica de Theda Bara, cuja estética reunia elementos burlescos e góticos. O Butoh, que nos apresentou uma dança obscuras, com sentimentos profundos em resposta ao contexto social em que foi criado. Entre muitos outros estilos possíveis de fusão dentro do Dark, como o Hip Hop, a Dança Contemporânea e etc. Assim, o estilo foi se configurando e permitindo uma liberdade e autonomia de executar diferentes tipos de fusões, com temas e atmosferas sombrias.
Minha visão sobre o Dark Fusion enfatiza, sobretudo, o aspecto obscuro presente na própria nomenclatura “Dark”. Com forte carga teatral e ampla liberdade temática, desenvolvi meu estilo a partir das raízes da Dança do Ventre, atravessando o ATS e o Tribal Fusion, e dialogando com diversas outras linguagens, como Dança Contemporânea, Dança Moderna, Butoh, Dança de Rua, Dança-Teatro, Kung Fu e experiências corporais acumuladas ao longo da vida. Esse percurso me permitiu ressignificar o Dark Fusion de forma subjetiva e construir métodos de criação e estudo que fortaleceram uma identidade artística própria, que é o que eu realmente valorizo na arte.
Texto por Gilmara Ígnea
Imagem por IA.
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